Mudanças tecnológicas e o emprego: Como a economia do compartilhamento traz o debate entre a precarização do trabalho e tecnologia

(Foto: Reprodução)

Nas obras do grande economista britânico David Ricardo encontra-se a seguinte previsão que traz reflexos sobre o tema: “[…] a opinião, recebida pela classe trabalhadora, de que o emprego ‘maquinaria’ é frequentemente prejudicial aos seus interesses, não se funda preconceito e erro, mas é conforme com os princípios corretos de economia política […]”.

De certo modo a preocupação com o desemprego ante a crescente onda tecnológica aparece como uma característica comum das sociedades capitalistas ao longo dos anos, desde os tempos de Marx ou Ricardo, surgiam tais especulações, acentuadas posteriormente com as Revoluções Industriais, pois já naquele tempo sempre se dizia que a máquina substituiria o trabalho humano.

Ou seja, estaríamos à beira de uma convulsão social assustadora ou seria apenas uma histeria infundada? Se detivermos a fundo, juridicamente falando, a Constituição Federal de 1988 já trouxe uma proteção nos direitos sociais ao emprego face a automação (Artigo 7º, XXVII).

Na obra do historiador judeu Yuval Harari, “21 lições para o século 21”, o autor aponta que desde o início da Revolução Industrial para cada emprego perdido para uma máquina pelo menos um novo emprego foi criado, e o padrão de vida médio subiu consideravelmente.

É notório que o ser humano possui duas habilidades, física e cognitiva. A máquina sempre competiu nos critérios físicos, enquanto os humanos se mantiveram à frente das máquinas em capacidade cognitiva.

Ilustro com o seguinte exemplo: enquanto na agricultura e na indústria surgiram maquinários, os trabalhos manuais foram automatizados, porém apareceram novos trabalhos que exigiam uma habilidade cognitiva que só humanos possuíam – aprender, analisar, comunicar, etc. Ao passo que a justificativa para a substituição seria de que o humano teria mais tempo e liberdade, basta pensar nos milhares de trabalhadores do campo que eram conhecidos como “boias-frias” e enfrentavam jornadas de trabalho desumanas análogas a escravidão e se especializaram e se tornaram tratoristas, operadores de colheitadeiras, entre outros. O que de certo modo lhe garantiram um empoderamento, pois agora possuem carteira assinada, jornada de trabalho com carga horária, FGTS, seguro-desemprego, acesso aos benefícios previdenciários, vale-alimentação, férias, descanso semanal remunerado, acesso a plano de saúde, 13º salário, hora-extra, direitos em casos de dispensa sem justa causa.

Ocorre que recentemente, temos lidado com outro problema que envolve a tecnologia e o trabalho, as interferências da economia de compartilhamento que ficou conhecida como o fenômeno da “uberização”, termo que surge a partir do aplicativo de viagens Uber, cuja lógica de trabalho traz uma ideia de liberdade por não ter patrão, cuja perspectiva é ainda inteiramente aliada com a ideia de empreendedorismo de si.

As greves dos entregadores de aplicativos surgidas nas últimas semanas, para alguns escancara o fracasso da economia do compartilhamento, a qual deveria dominar no século 21. Porém devemos fazer uma análise sobre todos os prismas possíveis e não apenas de um discurso fatídico.

Preliminarmente, a concentração nos aplicativos de entregas (Ifood, Uber Eats, Rappi, Bee) se deu em virtude da pandemia do Covid-19 que obrigou as pessoas a ficarem em casa, impedindo a aglomeração em estabelecimentos comerciais e o fechamento a público, sendo assim, a única alternativa para a sobrevivência do estabelecimento foi o serviço de Delivery.

Certamente, decorreu daí as cargas de trabalho excessivas apontadas por alguns. Porém, o que se deve levar em consideração é o momento vivenciado, pois por enquanto, na maioria dos grandes centros urbanos, o cidadão está impedido de ir a um restaurante. Logicamente, daqui a algum tempo não será a realidade, pois a situação não será eterna.

Com isso, não se pode ter apenas a ideia pessimista de que há uma exploração demasiada de determinada classe, pois doutro lado diversas empresas estão sendo afetadas com as medidas tomadas, diversas lojas fecharam as portas definitivamente, o que se busca na realidade é uma lei da mais-valia no serviço despendido no momento. Nos tempos que clamam por maior liberalismo econômico, o cenário que pode se esperar é justamente esse, pois segundo a célebre frase do Marquês d’Argenson: “Para governar melhor é preciso governar menos”.

Por isso, em entrevista a um motoboy, ele me disse da liberdade de passar 14 horas por dia sobre uma moto e não ter patrão. Ele conta da satisfação em decidir que entrega fazer ou não, se quer trabalhar 7 dias por semana ou apenas 5. Sendo assim, a uberização está diretamente ligada ao empreendedorismo, à flexibilização do trabalho. Sendo talvez, ainda uma alternativa melhor do que receber o “coronavoucher”.

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