Manutenção da boa saúde mental

(Foto: Divulgação)

Saúde psicológica em meio à escassez de estímulos: ajustamentos possíveis durante o distanciamento social

A corrente situação de enfrentamento à pandemia da COVID-19 traz consigo modificações nos hábitos de vida, nas relações sociais e, por consequência, desafios à manutenção da boa saúde mental. Saúde é capacidade de adaptação: no contato com o mundo que o circunda, o organismo saudável é aquele capaz de implementar modificações em si mesmo, a todo o momento. É a capacidade de renascer, constantemente, que possibilita a fluidez dos processos orgânicos. No caso do combate ao novo corona vírus, por exemplo, a eficiência do nosso sistema imune é proporcional à capacidade de operar mudanças para combater o agente nocivo. Semelhantemente, o funcionamento psicológico mostra-se mais ou menos eficiente na medida de sua adaptação a situações novas: quando a saúde psicológica é boa, os aspectos cognitivos, afetivos, comportamentais e relacionais ajustam-se de modo a permitir a satisfação das necessidades do organismo em sua interação com os recursos disponíveis em um dado momento.

Considerando-se como psicologicamente saudável o sujeito que é capaz de manejar seus desejos e ações em meio às infinitas possibilidades presentes no universo alcançado por sua percepção e as múltiplas limitações impostas pela experiência individual, a presente situação de pandemia pode ser considerada um teste de sanidade mental, tendo em vista que as possibilidades e os limites mudam radicalmente de perspectiva a todo momento. Nesse sentido, da reunião por vídeo chamada à confecção caseira de máscaras de proteção, as pessoas buscam formas de lidar com os limites impostos pelo meio. Para além dos objetivos mais imediatos (resolver pendências de um grupo de trabalho ou impor barreira à dispersão de gotículas), realizar videochamadas ou costurar máscaras são também meios de atender necessidades de relacionamento humano e de produção de significados materialmente tangíveis. No fundo, toda ação humana envolve a expressão de subjetividade, o que permite aos sujeitos a algum manejo, inclusive, de seus estados emocionais.

No que diz respeito ao fator relacional (nossa necessidade de estar em contato com outros seres humanos), não há que se enganar com a ideia de que as conexões virtuais não denotam distanciamento entre as pessoas. No entanto, em momentos excepcionais como o atual, medidas também de exceção mostram-se necessárias mesmo quando causam prejuízos em outras dimensões da vida. Ademais, embora haja prejuízos, as comunicações à distância, mesmo vividas como única alternativa no momento, trazem uma satisfação parcial. Entretanto, nada é igualmente percebido por todos da mesma maneira: o quão (in)satisfatória esse tipo de comunicação se mostra está relacionado à familiaridade de cada pessoa com a experiência de estar presente com o outro em um mesmo ambiente concreto. Se para algumas pessoas as mudanças em curso não são de grande impacto psicológico, há de se ponderar o quanto a ligação interpessoal “tradicional” lhes é importante. Essa ponderação, longe de ser um julgamento moral, é, na verdade, o reconhecimento de diferenças individuais nas quais residem pontos positivos e negativos. Assim, se até então não representava grande vantagem a preferência por contatos eletronicamente mediados em detrimento da presença face a face, hoje, talvez temporariamente, essa seja uma forma de viver mais bem adaptada ao contexto atual e, portanto, mais saudável.

É importante ressaltar que, embora o funcionamento psicológico saudável seja, necessariamente, a capacidade de adaptação, esse dinamismo ocorre de modo constante e gradual, exigindo um nível mínimo de estabilidade ambiental. Assim, tendo em vista que o atual contexto de distanciamento social marcou um rompimento brusco com o modo de vida cotidiano até então conhecido, seus efeitos psicológicos podem alcançar expressões negativas variadas em forma e intensidade: modificações do padrão de sono, irritabilidade, crises de ansiedade etc.

Para lidar com esses efeitos, reflexões com ênfase na experiência individual podem ser bastante esclarecedoras. De que forma cada um de nós reequilibra-se quando as situações fogem radicalmente ao nosso controle? Quais são os recursos de que nos utilizamos? Esses recursos podem não estar disponíveis neste momento, ao menos não da forma como estamos habituados a utilizá-los. Ainda assim, a construção de alternativas deve partir dessas questões que sinalizam o que nos é válido pessoalmente. Portanto, no lugar de buscar por formas padronizadas de lidar com as dificuldades vividas neste momento, devemos buscar pelos recursos que já nos são familiares e, a partir deles, pensar adaptações que os tornem possíveis no contexto atual.

Em outras palavras, devemos repensar perguntas do tipo: Devo organizar uma agenda de afazeres? Quais são os melhores aplicativos para registro de tarefas? Qual é a melhor sequência de tarefas no dia? Quais alimentos aliviam a ansiedade? Embora para cada uma dessas perguntas existam respostas razoáveis e testadas por especialistas, o foco dos questionamentos pode ser mais bem estabelecido quando partem da experiência individual. Assim, mostram-se mais úteis perguntas como: Eu já testei uma agenda de afazeres ou um aplicativo de registro de tarefas em outras situações? Funcionou bem para mim? Caso não tenha funcionado, há alternativas que ainda não considerei? Tenho hábitos de execução de tarefas que podem ser readaptados, no lugar de substituídos? As alternativas apresentadas por especialistas fazem sentido na totalidade do meu modo atual de operar? Portanto, embora mudanças sejam quase sempre desejáveis, devemos pensá-las de maneira estratégica. Se muitos recursos são demandados para implementar uma mudança, talvez seja o caso de considerá-la em cenário no qual esses recursos estejam mais disponíveis, sob pena de gerar sobrecarga e inefetividade tanto no estabelecimento da estratégia bem como no seu uso pretendido.

Retornemos, portanto, às vivências que, pessoalmente, fazem sentido para cada um de nós. Se tomar café com um amigo e conversar sobre a vida é um recurso do qual você se utiliza ao final de um dia difícil no trabalho, fazer uma ligação de vídeo para esse amigo (adaptação possível no momento) vai lhe trazer mais benefícios quando acompanhada de uma xícara de café. Por simples que pareça esse tipo de ajustamento, é importante ter em mente, sobretudo em situações de crise, que o poder de algumas sutilezas não deve ser subestimado. O que dá cor ao nosso viver cotidiano não são grandes eventos, mas a sutileza presente nos detalhes.

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