As bolhas tecnológicas e a intolerância em que vivemos

Thiago Franco Thiago Franco é jornalista, Doutor em Ciência da Comunicação pela USP, na linha de comunicação e Ambiências em Redes Digitais. (Foto: Divulgação)

A Internet vive de rastros. Não é teoria da conspiração. Pode crer. Nada se perde nas redes. Tudo é medido, catalogado, metrificado. De forma geral, as conhecidas redes digitais usam essas medidas para te manter em um ambiente aconchegante. O algoritmo é projetado para ser um oráculo. Quase tudo pode ser respondido nas redes. E, quase sempre, lemos as respostas que já desejaríamos que fosse verdade.  Aí está o grande problema.

Vivemos em bolhas. É um fato. Todos nós temos práticas repetitivas que nos mantém em um modus operandi rastreável. Nossas práticas cotidianas dizem muito sobre o que somos e sobre o que queremos. De modo geral – em algum momento da nossa vida e/ou por toda nossa existência –, fazemos parte de grupos sociais (família, trabalho, igreja, grupos políticos, amigos etc), que nos moldam o olhar ou moldam nossa forma de ser. Procuramos nos nossos semelhantes, naqueles que se parecem com a gente, formas idênticas de compartilhar experiências e modos de interpretar o mundo. Isso é confortável.

O ideal é que mantivéssemos amizades com quem pensa de modo distinto do nosso. Podemos aprender com essas pessoas. Contudo, note que dificilmente você terá um amigo, que age totalmente diferente da sua forma de ver as coisas. Ao menos um detalhe, ele deve ter em comum. Do contrário, essa pessoa provavelmente não estabelecerá uma relação com você. Quando o outro é muito diferente, ele é tachado em um estereótipo ou cai em algum preconceito.

Na prática, a velha máxima “os opostos se atraem”, não é bem verdade. Chamamos isso, na filosofia, de teoria da imunidade. Criamos comportamentos e ambientes semelhantes para nos imunizar dos perigos e das coisas estranhas do mundo.  Desse modo, somos facilmente rastreáveis. Tudo que o algoritmo precisa saber são nossas diferenças e nossas semelhanças para nos alocar em grupos de consumo. Os de esquerda, os de direita, os agnósticos.

O algoritmo nos responde o que já desejávamos, antes mesmo de perguntarmos. Como isso é possível? Ele rastreia os modos de consumo semelhantes: as músicas, os gostos pessoais, as informações pessoais e, a partir disso, faz o cruzamento de dados. Grande volume de dados, Big Data.

Todos os dias, as informações que nos chegam são direcionadas de acordo com o nosso perfil, com o nosso modo de ser nas redes. Qual tua marca preferida? Para onde quer viajar? Quer comprar um carro? Você já notou que quando quer comprar algo, outras dezenas de ofertas aparecem no teu e-mail ou na tua rede social?

Pois bem, você é previsível e o algoritmo pode até te antecipar. Todo esse ambiente repetitivo de consumo que você cria é chamado de bolha. Quando digo consumo, me refiro das amizades que você escolhe ter na tua vida pessoal, até qualquer coisa que você olha, visita ou compra pela Internet. Nas redes as relações são medidas pelo consumo. Quantos megabytes você consome conversando com teus amigos pela internet? 

Vivemos em bolhas, mas precisamos aprender a quebrar a lógica desses ambientes. Não é sair da Internet. Agora e nas próximas décadas não viveremos sem o digital. Porém, precisamos compreender onde estamos entrando. Quais são as armadilhas e por qual motivo isso é importante?

Posso elencar algumas respostas: Primeiro devemos nos educar para as redes digitais, assim como, aprendemos a escrever e a ler; outro argumento é que nosso modo de ver o mundo não é único, o mundo é diverso e precisamos saber respeita-lo na sua complexidade. Devemos entender que fazemos parte de uma realidade maior e a nossa verdade não é absoluta sobre as outras.

Grande parte da intolerância que emerge na Internet ocorre pelo motivo das pessoas se manterem totalmente afundadas nas suas bolhas off e online, nas suas ignorâncias. Quando o algoritmo proporciona o encontro entre perfis totalmente diferentes, o confronto é certo.

Obviamente a intolerância não surge na Internet. A intolerância também não assume lado. No caso do Brasil, aparece de acordo com a diferença que marca nossa constituição cultural. Herança que vem das aldeias ameríndias, das fazendas, da elite branca, da senzala, dos ribeirinhos, das cidades, dos guetos. Nasce na incompreensão do outro. E todos os outros estão conectados, pode ter certeza. Eles pensam diferente de você. 

Assim, a maioria dos usuários não conseguem estabelecer um senso crítico que do outro lado não é um smartphone que se pronuncia e sim um ser humano. A Educação é um caminho para entender a complexidade que nos rodeia e a tecnologia que nos aproxima.

por Thiago Franco

Jornalista, Doutor em Ciência da Comunicação pela USP, na linha de Comunicação e Ambiências em Redes Digitais

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