Uma reunião ocorrida nesta quinta-feira (21) entre a direção do Flamengo e as famílias dos dez atletas mortos e três feridos no incêndio ocorrido no último dia 8 no centro de treinamento do clube carioca, em Vargem Grande (zona oeste do Rio), terminou sem acordo.

Foi a primeira (e talvez única) audiência realizada sob mediação do Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ), em cuja sede a reunião ocorreu. Apesar da expectativa inicial de acordo, os familiares saíram do encontro revoltados com a conduta do Flamengo e afirmaram que o procedimento de mediação está encerrado.

Aguardam, porém, nova proposta do clube, para tentar evitar que a discussão sobre valores passe ao âmbito judicial. Neste caso, uma solução pode demorar anos. O clube não se pronunciou e, mais uma vez, seus representantes não deram entrevistas. “Não houve mediação”, afirmou Danrlei Pisetta, pai do goleiro Bernardo. “A gente pediu que o Flamengo fizesse uma proposta e vieram com valores pífios, que não satisfizeram as famílias. Não há ninguém do Flamengo aqui que decida. Onde está o presidente? Será que ele tinha algo mais importante para fazer? É uma falta de respeito. Peço a todos os torcedores que vão estádio e que tem mandado mensagens para nós que reflitam sobre o que o time que eles torcem está fazendo com a gente. Isso não se faz nem com cachorro. Não houve negociação. Qualquer tipo de negociação está encerrada.”

Marília de Barros, mãe de Arthur Vinicius afirmou que falta, por parte de Flamengo, respeito com os pais que perderam filhos no incêndio. “Tem família aqui há uma semana, saiu do seu lar, de perto de casa, está aqui sofrendo”, afirmou ela. “Aí chega aqui, você escuta, nada se resolve. Eu nunca mais vou ver meu filho. Alguém sabe o que é isso? Eles não sabem o que é isso, quem perdeu fui eu. Ninguém sabe a dor que eu estou sentindo, somente eu sei a dor. A todo momento eu falo, eles tinham que ter respeito”, reclamou Marília de Barros, mãe de Arthur.

Cristiano Esmério, pai do goleiro Christian Esmério, se disse perplexo. “Estão brincando com a vida dos nossos filhos”, reclamou. Na audiência desta quinta-feira o Flamengo foi representado pelo vice-presidente geral e de procuradoria geral, Rodrigo Dunshee de Abranches, mas ele saiu enquanto a reunião ainda transcorria e deixou uma equipe de advogados que não tinha poder de alterar a proposta apresentada pelo clube.

Foi a segunda negociação que terminou sem acordo desde que o incêndio ocorreu, há 21 dias. Em uma reunião anterior, intermediada pelo Ministério Público do Trabalho, pela Defensoria Pública e pelo Ministério Público do Estado do Rio, o Flamengo ofereceu entre R$ 300 mil e R$ 400 mil para cada família de vítimas mortas, além de um salário mínimo (R$ 998, atualmente) por mês ao longo de dez anos.

O valor foi considerado insuficiente pelas instituições. O Ministério Público do Estado propôs R$ 2 milhões por família e o pagamento de R$ 10 mil mensais até que cada vítima completasse 45 anos. Essa negociação foi encerrada sem acordo, na última terça-feira (19).

O valor que seria oferecido pelo Flamengo nesta quinta-feira não havia sido divulgado até à noite. Na quarta-feira, 20, o MP do Rio pediu na Justiça o bloqueio de R$ 57,5 milhões nas contas do Flamengo, para garantir eventuais indenizações, e a imediata interdição do centro de treinamento do Ninho do Urubu, onde ocorreu o incêndio.

Segundo o TJ-RJ, o Flamengo queria realizar a mediação de forma individual, com cada família. Parentes e representantes das vítimas discordaram e decidiram não participar da continuação da audiência, que aconteceria na sexta-feira (22). O presidente do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (Nupemec), desembargador Cesar Cury, lamentou que as partes não tenham chegado a um acordo.

“O Tribunal aceitou o pedido do Flamengo e instaurou o processo de mediação. Na audiência de hoje, os representantes do clube apresentaram a proposta de como o clube gostaria de negociar, mas ela não foi aceita, e os familiares decidiram encerrar a mediação”, afirmou o desembargador. (Fábio Grellet)