Toque na terra alivia estresse e fortalece mente e corpo

Além de pesquisas científicas, depoimentos também certificam o quanto o contato com a natureza, por meio do cultivo de plantas, é benéfico à saúde.  Goianienses estão tendo oportunidade de colocar as mãos na terra em atividades em uma agrofloresta desenvolvida na cidade

Há muito os mais antigos já chamavam a atenção para a importância do contato direto com a terra e seus benefícios para a saúde e o bem-estar mental. E o que era sabedoria popular, hoje tem comprovação científica. Estudos realizados na Noruega evidenciaram que pessoas diagnosticadas com depressão, mau humor persistente ou transtorno bipolar, que passaram seis horas por semana cultivando flores e legumes, tiveram melhoras significativas no seu quadro de saúde mental. Já na Inglaterra, outra pesquisa indicou que o hábito de cultivar horta e jardim proporciona benefícios para idosos acometidos pelo mal de Alzheimer.

Natural de Iporá, município no Centro do Estado, o taxista Jorge José da Silva, de 56 anos, não precisou de nenhum desses estudos para saber o quanto estar em contato com a terra e o campo pode ser benéfico à saúde do corpo e da mente. “É um relaxamento, como se estivesse em um clube. Muitos gostam de praia e outras coisas, mas meu divertimento é isto aqui, mexer com a terra. Sempre tivemos a vontade de voltar às origens e morar rodeados pela natureza, poder plantar nossos alimentos, sem produtos químicos e viver de forma mais tranquila, sem a correria da cidade grande, mesmo estando dentro dela”, afirma.

Em sua cidade natal, Silva trabalhava no campo e vivia do que plantava, como milho, arroz, feijão e mandioca. Para poder dar melhores oportunidades de estudo aos filhos. Jorge e sua esposa, Doraci Tomás de Oliveira, de 54 anos, vieram para Goiânia há 20 anos. Apesar de duas décadas na cidade grande, os dois não esqueceram o quanto a terra lhes faz bem. O “retorno às origens” se deu graças à participação dos dois num trabalho feito junto ao Parque Cultural Florata, onde está sendo implantada uma agrofloresta, que combina o plantio de espécies arbóreas nativas e outras frutíferas para a recuperação de área degradada.

No sábado, 10 de novembro, eles participaram do plantio de um pomar do Cerrado em uma área de 8 mil metros quadrados no Parque Cultural Florata. O terreno recebeu em torno de 45 mudas de 30 espécies do bioma Cerrado, seguindo os critérios da técnica da agrofloresta.

Ao lado do pomar existe uma área de 10 mil metros quadrados desenvolvida há um ano e que já produziu mais de quatro toneladas de alimentos.  “Essa gratidão pela terra a gente tem desde criança, porque somos filhos de agricultores, então temos muita relação com o campo mesmo”, afirma Doraci, que também possui horta em casa.  “É muito gostoso quando vemos o resultado do plantio”, frisa.

A agrofloresta está sendo implantada pela Biapó Urbanismo, responsável pelo Parque Florata que futuramente será aberto ao público. A empresa está envolvendo no cultivo os proprietários dos terrenos do condomínio de chácaras lançado ao lado do futuro parque, o Florata Condomínio Florestal. “Trata-se de uma ação educativa porque o objetivo é replicar a técnica de plantio em suas chácaras. Os benefícios estão indo além dos objetivos iniciais e ela está trazendo bem-estar aos participantes”, explica a diretora executiva da Biapó Urbanismo, Márcia Mesquita, responsável pelo Parque Cultural Florata.

Foto: Raquel Pinho

Aceitação do luto

O cultivo de uma horta é “melhor do que qualquer antidepressivo” afirma a recepcionista Rosilene Rodrigues Lima Montagna, de 42 anos. Ela perdeu o pai há cinco anos e passou por um período de grandes dificuldades emocionais, tendo chegado, segundo ela, “ao fundo do poço”. Ao ouvir o conselho de um médico com quem trabalhava, de que precisava ir para um lugar para se sentir melhor, Rosilene descobriu que a proximidade com a natureza e o contato com a terra lhe bem faz depois de conhecer o projeto do Florata Condomínio Florestal e do Parque Cultural Florata.

Hoje, está totalmente integrada às ações ligadas à agrofloresta e, inclusive, passou a cultivar horta e planta em casa. “É inexplicável o prazer emocional ao mexer com a horta e fico também muito gratificada em saber que estou contribuindo com o meio ambiente”, conta a recepcionista ao explicar que no sistema de agrofloresta nada é desperdiçado, tudo se transforma. “Lá não tem só hortaliça, há plantas medicinais, fico encantada e o Murilo (biólogo do espaço) vai nos explicando coisas novas e vamos aprendendo, ficando cada vez mais interessados”, diz.

Moradora do Setor Universitário, Região Leste de Goiânia, a microempresária do ramo de festas, Ieda Batista de Faria Nunes, de 53 anos, conta que teve pouco contato com a zona rural ao longo da vida e que, por isso, nunca havia tido interesse por um contato maior com a terra. “Antigamente eu sentia medo, medo de bicho, de minhoca. Hoje eu sinto prazer, um prazer muito grande, saber que eu estou tocando ali na terra para levar uma coisa super saudável para minha família”, conta entusiasmada. A mudança aconteceu depois de ela e o esposo se tornarem proprietários de um terreno no Florata Condomínio Florestal, o que os levou a um contato maior com a agrofloresta do Parque Cultural Florata.

Para o biólogo e mestre em ecologia, Murilo Arantes, responsável técnico que supervisiona o plantio da agrofloresta, o contato com a terra tem aspectos muito positivos. “Eu tenho visto que não há nada que impacte mais e conecte a pessoa com o meio ambiente do que o cultivo das plantas”, ressalta. Ele lembra, inclusive, que o cultivo de hortas para melhorar sintomas de doenças mentais ou mesmo para proporcionar melhores experiências sociais são aplicadas em Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Há iniciativas do tipo na Bahia, Santa Catarina e Paraná, por exemplo.

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